CARTA ABERTA
Repensar a representação
estudantil, no campus, na universidade, no Brasil
A CRIAÇÃO DIRETÓRIO ACADÊMICO DA UFABC-SBC
Há cerca de 1 ano, motivados pelo
aparente abandono do campus de São Bernardo do Campo (SBC) pelo Diretório
Central dos Estudantes (DCE) e pela inatividade do CA do BCH (que naquele
momento era enxergado como uma entidade representativa de todo o campus),
alguns estudantes começaram a articular a criação de uma entidade estudantil
local, que buscasse atender aos interesses dos discentes do campus de SBC da Universidade
Federal do ABC (UFABC). Este grupo logo se expandiu e logo eu também estava
participando de suas discussões, ainda desorganizadas e dispersas, mas que logo
ganharam corpo, organização e que resultariam, após assembléias, na criação do
Diretório Acadêmico (DA) Sigma.
Após ter participado de todo o
processo de criação resolvi criar uma chapa, a chapa Raiz, onde toda a
diversidade de alunos do campus de SBC estivesse representada, busquei alunas e
alunos do BCT, do BCH, dos cursos pós BI, dos diversos grupos de afinidade já
estabelecidos (esportivo, cultural, etc.), e cheguei a um total de 25 adeptos.
Lembro-me que fui criticado por alguns amigos pela composição da chapa, visto
que eu abdiquei de criar uma chapa ideológica, ou uma chapa de amigos, mas
mantive minha convicção de que a diversidade do campus deveria ser representada
na possível primeira gestão do DA de SBC.
Infelizmente a chapa Raiz foi a
única candidata na primeira eleição do DA (uma outra chapa, encabeçada pelo discente
Silas Leite, não se viabilizou por não conseguir o número mínimo de componentes
definido no estatuto do DA, que é de 7), o que tornou o processo eleitoral algo
não mobilizante, sem debates que adiantassem as expectativas e necessidades do
campus SBC. Em 01/12/2012, com 165 votos de um total de 184 votos (19 votos em
braço ou nulos), foi eleita a chapa Raiz para a primeira gestão do DA, e eu
seria o primeiro Presidente.
Hoje, 12/08/2012, eu renuncio ao
cargo de Presidente. Renuncio por acreditar que tenho agora que me concentrar
em meu filho, que está por nascer nos próximos dias, e em minha esposa, que
precisará que eu esteja mais presente.
Porém, neste último momento
dedicado ao DA Sigma, eu gostaria de compartilhar, para quem sabe jogar as
sementes de futuros debates, pensamentos advindos das experiências que a função de presidente
me proporcionou.
A GREVE E OS CONSELHOS
Quando bradei na assembléia (após
um sonoro porra) para que os alunos mantivessem o senso crítico eu antecipava
os diversos usos oportunistas que tal greve teria (e eu apelo novamente ao
senso crítico de todos para que os enxerguem). Continuo favorável à greve, é
preciso que isso fique claro, porém o mesmo senso crítico que pedi me faz ver
que os alunos serão massivamente prejudicados pelo corporativismo dos
professores no período pós-greve. Muito foi dito sobre pauta local, pauta dos
estudantes, mas muito pouco foi efetivamente feito. Vejo que estamos perdendo a
oportunidade de ter como bandeira a única pauta que efetivamente fará diferença
para os estudantes no período pós greve: Equilíbrio nos conselhos e comissões
universitárias. Serão os conselhos e comissões que definirão o que será feito
no período pós-greve, e estes hoje são compostos majoritariamente por
professores, de forma que o interesse destes está sempre garantido, em
contrapartida aos interesses dos funcionários e alunos. Atualmente, para
exemplificar, em um universo de 40 a 60 votos, os estudantes e funcionários têm
2 ou no máximo 4 votos cada um nos conselho e comissões da universidade. Esta
disparidade faz com que o corporativismo reine e que, obviamente, os interesses
dos professores se imponham em detrimento dos demais. Não estou falando aqui em
paridade, uma utopia idiota utilizada como propaganda na UNE e congêneres,
estou falando de equilíbrio. É natural que os professores sejam maioria, até
porque muitos ocupam também funções administrativas, mas não é natural que
somente as suas vozes tenham relevância nos debates universitários. Uma divisão
da composição dos conselhos e comissões onde 50% dos votos fossem dos
professores, 25% dos funcionários e 25% dos alunos, a meu ver, traria o
equilíbrio necessário para que nenhuma vontade fosse imposta.
Talvez seja tarde para que isto
aconteça já no período pós-greve (no qual não tenho a mínima dúvida de que os
alunos serão prejudicados em detrimento do interesse dos professores), mas não
é tarde para que o nosso comando de greve, nossas entidades representativas
(DCE e DA) e nossos conselheiros façam com que esta greve também traga
benefícios reais e duradouros para o corpo discente de nossa universidade, do
contrário será uma greve legítima, mas da qual só os alunos sairão
prejudicados.
UNE, UEE, ANEEL
A política além dos muros das
universidades é sim importante, certamente não estou do lado daqueles que
advogam por uma postura “apolítica” das representações estudantis (como se isso
fosse possível!), porém vejo que os atuais grupos organizados (de situação e de
oposição) dentro da UNE, UEE e ANEEL nada mais são do que extensão de partidos
políticos, são grupos que se comportam como se fossem torcidas organizadas e
que, desta forma, estão sempre muito comprometidos ideologicamente e
passionalmente para terem discernimento e independência para tomarem as
decisões e encamparem as posturas do que gostaríamos de chamar de movimento
estudantil. Tais grupos não têm projetos para os estudantes ou para as
universidades, esses grupos têm apenas projeto de poder, onde ocupar o maior
número possível de DCE’s, DA’s e CA’s representam um maior número de delegados
votantes (e eventualmente de verba para suas ações político-partidárias),
delegados estes que são fundamentais para se chagar ao poder na UNE e
congêneres.
Neste momento temos um grupo que
detém o controle da UNE e da UEE, e este grupo já enxerga a UFABC como mais um
voto precioso para a manutenção de seu projeto de poder nas instituições
supracitadas, assim como também temos a oposição, que inclusive já geriu nosso
DCE, que também precisa se expandir para brigar contra a hegemonia do grupo
rival.
As eleições para o DCE e o DA se
aproximam e é preciso que os alunos da UFABC tenham discernimento para entender
quais são os interesses que estarão por trás de cada campanha. Eu ainda
acredito que os grupos independentes, não os “apolíticos”, são o melhor
caminho, o problema é que os independentes muitas vezes preferem se abster do
processo político da universidade, se escondendo na retórica (exposta em redes
sociais) e evitando a prática.
O DCE
Para começo de conversa é preciso
esclarecer que não estou falando de gestões (nem da atual, nem da anterior, nem
da próxima), estou falando da estrutura de representação estudantil, a qual
acredito que precisa ser repensada. Dito isto…
O DCE é um CA de BC&T ou no
máximo um DA de SA. Nada mais natural, visto que o DCE nasceu em uma
universidade de campus único, visto que quando SBC nasceu com seus 400 alunos
SA já tinha mais de 2 mil alunos, visto os discentes de BC&T de SA estão
muito longe dos problemas do dia-a-dia dos discentes de BC&T e BC&H de
SBC (problemas estes que não são conhecidos com uma aula ou outra no campus de
SBC).
SA precisa de uma representação
que pense os problemas de seu campus, e esta função foi naturalmente assumida
pelo DCE, o problema é que a universidade se tornou multicampi e o DCE não. O
problema é que o DCE, para ser Diretório Central, precisa ter uma melhor
compreensão da universidade como um todo e não uma compreensão limitada que tem
como única referência SA e o BC&T (de SA).
Talvez em um ou dois anos tenhamos
mais um campus, o de Mauá, e este problema de representação se agravará, a não
ser que comecemos a pensar em uma solução desde agora.
O que eu penso:
SA precisa de um DA, ou o DCE
sempre assumirá esta função, assim como Mauá precisará de um DA, assim como SBC
precisa de um DA. O DCE, para ser DCE, precisa funcionar como um colegiado dos
representantes eleitos em seus campi, desta forma trabalharia por todos e, mais
importante, teria compreensão dos problemas de todos os campi. Talvez seja um
processo complexo de se materializar, pois dependerá da vontade e compreensão
dos alunos de SA (que afinal são o fiel da balança quando se trata de DCE).
O DA de SBC
Neste caso eu estou falando sim
da gestão atual.
Falhamos em diversos aspectos.
Muitos desses aspectos têm a ver com criar uma entidade do zero, com uma gestão
composta po alunos que não estavam ligados a nenhum “grupo estudantil
profissional”, por um campus em que, por falta de equipamento, muitos alunos
assistem aula e voltam para casa, reproduzindo um comportamento do ensino médio
e não se envolvendo com o que deveria ser a vida universitária.
A meu ver a principal função do
DA, nesta primeira gestão, era afirmar SBC como parte da UFABC, era melhorar a
auto-estima dos alunos (que muitas vezes eram tratados como seres irrelevantes
por seus pares de SA) e principalmente ser um ponto de diálogo com a
Universidade, que antes só enxergava a representação de SA como legítima.
As festas promovidas faziam parte
desta estratégia, tendo sempre como norte que não eram festas para dar lucro,
mas festas para afirmar a identidade de SBC. Os eventos de extensão e o apoio
aos grupos já organizados também, porém com a ressalva que limitações
financeiras e organizacionais nem sempre nos permitiram chegar onde desejávamos.
Quero ressaltar que embora não
tenhamos tido condições de apoiar a todos os grupos e alunos que tinha projetos,
NUNCA boicotamos ou fomos contra NENHUM projeto. Reconheço nossa incompetência
em diversos aspectos, principalmente logístico e organizacional, mas não
aceitarei as acusações feitas pelo discente Thiago Leite, que até hoje carecem
de prova, de que a gestão Raiz tentou boicotar o seu projeto de cursos de
idiomas. Não aceito terminar minha gestão com esta acusação leviana, feita de
forma irresponsável em redes sociais, e tenho certeza de que nenhum membro da
gestão Raiz jamais faria nada para prejudicar qualquer projeto de extensão,
fosse de quem fosse (ao contrário, membros da gestão estavam entre os muitos
que participaram como alunos de tal ação, que ressalvada seu uso político
irresponsável foi uma ótima iniciativa).
Dito isso…
É preciso que este trabalho
continue, é preciso que os alunos de SBC tomem para si o DA e o solidifique.
Neste momento, último terço da gestão atual, a Raiz se dividiu em diversas
direções, alguns desistiram, outros se desmobilizaram, outros se envolveram com
os “grupos estudantis profissionalizados”, e alguns outros mantém o espírito de
independência e ação, cito nominalmente a nova presidenta Beatriz Soares como
exemplo deste último grupo. Porém é preciso agora construir a sucessão desta
gestão (por membros da gestão atual, por outros grupos, o certo é que a Raiz
não concorrerá à reeleição), iniciar o processo eleitoral do DA e garantir que
a representação dos alunos de SBC esteja cada vez mais forte e presente nas
questões da universidade.
Por hora me ausentarei das
questões políticas da universidade, mas tenho certeza que temos pessoas capazes
tanto em SA quanto em SBC para trabalharem pelo corpo discente de nossa universidade
e, quem sabe, construir a representação estudantil do século XXI.
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CARTA DE RENÚNCIA
Aos associados, secretários e
diretores do Diretório Acadêmico Sigma da Universidade Federal do ABC campus
São Bernardo do Campo.
Prezados,
Venho através desta comunicação,
em caráter irrevogável, comunicar a minha renúncia ao cargo de Presidente do
Diretório Acadêmico Sigma.
Tal decisão foi tomada após longo
período de reflexão e se dá fundamentalmente em razão da nova responsabilidade
que terei dentro de alguns dias com o nascimento de meu filho Davi.
Conforme estatuto do Diretório Acadêmico
Sigma, a Diretora de Integração Beatriz Soares assume imediatamente as funções
antes sob minha responsabilidade.
Agradeço ao apoio de todos os
associados, professores, funcionários, secretários e diretores durante estes 8
meses em que estive a frente deste DA.
Atenciosamente,
Johnny Seron Bispo
São Bernardo do Campo
12 de agosto de 2012